A Seita Que Dói Menos
Faz um tempo que vi um meme que dizia: “a pessoa, depois dos 30 anos, precisa escolher uma seita para seguir”. E, realmente, nada mais saudável do que se fiar cegamente a um preceito sem ter vergonha de ser feliz (ou até o Chico Felitti expor o caso em um podcast).
Mas seita a que o meme se refere (e eu também) são de coisas muito mais saudáveis: corrida, natação, dança, escalada, equitação... you name it. Na verdade, sempre olhei com certa desconfiança qualquer atividade que você consegue fazer “com prazer” e por mais de algumas vezes na semana. Por que eu vou me submeter a uma outra rotina semanal, vendo as mesmas pessoas, fazendo as mesmas coisas? Isso já tem nome: é trabalho, e já estou um pouco farto.
Então, do alto de minha supra-racionalidade infantil, julguei indiscriminadamente (e na minha cabeça) qualquer um que se envolvesse nessas atividades. “Forró? Quem é que precisa dançar tanto a ponto de furar a sola do sapato?” ou “Escalada? Qual a necessidade de ficar subindo pedras por horas se hoje já existe o elevador? E outra: a mão fica desidratada. Quem não curte uma mão macia!” ou “Esse povo do boardgame que fica 6 horas sentado numa mesa repleta de cartolina esperando a gentileza de dois dados darem doze é muito delulu”.
Até que fui pego por uma delas. Começou aos pouquinhos, de leve. Timidamente. Mas agora consome as minhas semanas e a minha mente. Estou apaixonado por um esporte. Sim, é isso mesmo: estou amando pingue-pongue.
Comecei a ter aulas há uns três meses, da forma mais descompromissada possível. Hoje me pego sozinho treinando com uma raquete invisível o meu forehand, o meu backhand, o meu duplo twist carpado dos santos. Não, não existe duplo twist no tênis de mesa. Eu acho. Talvez.
É um esporte que agrada a gregos e troianos, une todas as tribos como foi o Norvana. Em uma mesa você está levando uma sova de uma criança de 9 anos. Na outra, disputando com um senhor de 71. Os dois, no final da aula, indo embora e apontando para você entre risadas. É incrível. Sim, estou aprendendo e é muito bom. Estou consumindo conteúdo sobre o esporte, vendo vídeos, cuidando da raquete como se fosse um bebê de madeira e borracha, um “Pinóchio de Látex”. Meio estranho. Desculpa.
Há umas semanas estava jogando com um rapaz e a disputa não contava pontos. Ficamos cerca de 1 hora em um jogo em que o objetivo não era ganhar, e sim só ouvir o ping de cá e o pong de lá. Claramente ele era mais experiente. Mas, no final, ele virou para mim e disse:
— Meu amigo, muito obrigado. Você não sabe como isso foi importante para mim hoje.
E aquilo foi simbólico. Como se eu ainda não soubesse o quão especial era. Como está sendo, na verdade. “Então é isso que as pessoas sentem quando se apaixonam por uma atividade? Que interessante...”.
Agora tenho uma seita para chamar de minha. Julguem-me.
Ou tentem me derrotar em uma mesa com redinha. A escolha é de vocês.


Que delícia, Leo... aproveita!
Só uma correção: "une todas as tribos como foi o Norvana*"
Abraço!
Muito bom!!!