Maldição
Bernardo estava ao lado da cena do crime: uma travessa de porcelana quebrada, pertencente ao enxoval de casamento de sua avó menos querida. Não é que não gostasse dela. É que ela dava um pouco de medo, falava sozinha pelos cantos da casa, apontava facas para paredes inocentes.
Ao ouvir o barulho do estilhaço, vovó correu em direção ao infortúnio espetáculo.
— O que você está fazendo com essa travessa, menino?
— Não é culpa minha!
— É culpa de quem?
— Escapou da minha mão!
— A sua mão é sua!
Beirando as lágrimas, o queixo tremelicando, vovó se aproximou de Bernardo e começou a falar na altura do menino. Seu tom de voz, um pouco mais calmo, tentava apaziguar a situação. Um disfarce bem do mequetrefe.
— Você sabe que a vovó se casou faz 43 anos?
Estava emudecido.
— Um casamento tem muitos percalços: dias bons, ruins, apenas dias. Exige da gente. Mas eu tenho saudades do seu avô. Um homem de fibra, moral. Você ia gostar dele. Não ia, vovô?
A avó olhava para o vazio, e Bernardo não entendia uma palavra.
— Essa travessa era uma das únicas coisas que eu tinha dessa época.
— Eu não fiz por mal, vovó.
— Então você assume?
— Eu não quis fazer. Aconteceu.
— Realmente. Aconteceu.
A lágrima brotou.
— Engole o choro e me ajuda aqui.
Bernardo e a avó estavam juntando os cacos de uma nova memória perdida. Cada pedaço, uma recordação. Não havia conserto.
— Eu acho justo tirar algo de você também. Você não acha?
Bernardo não entendeu. O que era justiça? Queria reparar o dano de alguma forma, então só assentiu com a cabeça. A avó do menino passou a mão em sua cabeça, um certo carinho que não era costumeiro.
— Pois, a partir de hoje, meu filho, toda vez que você descer à praia, fará chuva. Não haverá um dia, em qualquer lugar que esteja, em que você pise na areia e faça sol. Sempre choverá. Aqui, ou nos lugares que você desbravar em sua vida adulta, choverá. Choverá!
Bernardo continuou catando os caquinhos, em silêncio.
Largos anos passaram desde a maldição da bruxa familiar. Na verdade, mal lembrava desse episódio em sua vida. A estranha avó morrera havia tempos. Mas a vida era boa, estável. Tinha um casamento de margarina e filhos lindos. Tinha sempre um carro do ano na garagem e uma casa de veraneio esperando pelos dias quentes de verão.
E eram nesses dias que Bernardo se lembrava dela. Com o guarda-chuva na mão, olhava o horizonte cinza com nostalgia de uma senhora que talvez o amasse, talvez não, mas que tinha certeza dos seus problemas psicológicos.
Não havia conserto. Novas memórias também eram feitas de cacos de chuva.


Muito bom! Para mim nem seria praga.