RECESSO
Antes de entrar no período mais confuso do ano, esse que compreende a vinda do baby Jesus nos braços do Senhor Noel-Cola e a decepção de não ter ganhado milhões na Mega da Virada, vim aqui fazer um balanço de como foram esses trezentos e sessenta e tantos dias da minha breve passagem pela Terra.
É difícil tentar resumir tantos dias. Entretanto, tudo é questão de impressão: 365 dias são muitos dias. 52 semanas parecem bem menos. 12 meses, para quem parcelou um iPhone na Claro, podem ser um alívio (não é o meu caso). Um ano com uma tornozeleira eletrônica encalacrada na perna pode parecer uma eternidade (também não é o meu caso).
É difícil lembrar de tudo. A cabeça falha, nos engana, tenta romantizar as passagens ruins. Até por uma espécie de proteção. A nostalgia é um perigo. O agora é muito melhor. Mesmo assim, contarei com a ajuda do Google Fotos para saber o que eu fiz este ano, mês a mês.
JANEIRO
Comecei comendo queijo e pegando a estrada. Vi uma cobra. Tomei suco bom e fui a um simulacro do Castelo Rá-Tim-Bum. Não gostava muito do Etevaldo. Comi ótimas comidas, fui a uma peça infantil, fui a um aniversário de 100 anos de uma senhora em um buffet infantil. Ela me confidenciou que não gostaria de estar lá porque estava frio. Deixei roupas na costureira para cerzir ou coser (os verbos mais bizarros moram na alfaiataria).
FEVEREIRO
Fui a um aniversário com presunto vegano, pesquisei frigideiras para comprar e achei um erro em um comunicado do Sesc Pompeia. Comi ótimas comidas e gostei muito de uma figurinha que recebi no Zap. Fui para a praia com meus pais e minha amada na data do meu aniversário. Na oportunidade, percebi que coloquei meus pais para subir muitas escadas e me arrependi (um pouco). Meu relógio queimou por conta da água salgada. Ganhei vela, limoncello, alguns bolos. Comprei um piano digital (que espero um dia conseguir ter paciência para tocar direito).
MARÇO
Bebi aquele iogurte japonês na mamadeira, o que prova que tenho um pouco de adulto infantilizado. Pulei carnaval de Homem-Aranha com outros homens-aranhas. Também fui de Forrest Gump. Malhei, beijei. Tomei café da manhã bom. Tirei fotos comprometedoras (dos outros) no ambiente de trabalho.
ABRIL
Amei. Beijei. Puxei ferro. Consegui uma imagem da Miley Cyrus sorrindo com os dizeres “Infecção Urinária”. Ri. Fui ao show do Gil e a uma peça de teatro mutcho loka e que provavelmente custou muito. Comprei meias. Testemunhei que muitos restaurantes não sabem fazer polvo. Fui para Salvador e pra Chapada Diamantina e comecei uma caminhada de cinco dias achando que seria fácil. Não foi. Senti saudades, achei tudo lindo. Tive terror noturno e ansiedade. Usei uma pomada incrível para os joelhos. Tirei fotos e me preocupei. Tive inveja de jovens saudáveis e privilegiados europeus. Tomei banho de mar.
MAIO
Comi uma lasanha maravilhosa, o que para mim é difícil, pois sou um crítico do prato. Revi um chefe antigo e, por incrível que pareça, senti saudades. Trocaria o momento por uma lasanha? Sim. Vi outra peça que possivelmente pode ter custado uma fortuna. Valorizei a comida do MST e o cheesecake caro da Santa Cecília. Cansei do curso de cinema que estava fazendo. Fiquei doente por conta do pó de obra no trabalho.
JUNHO
Fiz panquecas, comemorei aniversários. Utilizei IA para fazer uma foto do Arnold Schwarzenegger cruzado com o Schopenhauer. Ri. Recebi um vídeo da minha avó com Alzheimer dirigindo o próprio carro, compenetrada. Fui a um casamento de um grande amigo e tirei muitas fotos. Me achei bonito. Minha namorada estava linda. Distribuí diplomas. Tirei foto de uma banana siamesa: uma BINANA. Fui a festas juninas e me uni estavelmente. Fizemos uma viagem incrível para BH e me acabei de comer. Percebi que falo muito sobre comida. Comida é ótimo.
JULHO
Continuei a viagem para BH, então continuei comendo. Fiz um review de uma farmácia mineira. Comprei remédio fitoterápico para fazer o trato digestivo funcionar. Funcionou. Vi arte cara. Refleti sobre a vida. Bebi com um amigo. Tirei foto de um LP do Roberto Carlos com uma intervenção artística. Ri. O curso de cinema acabou e meus sábados ficaram mais tranquilos. Comi. Fui a uma apresentação de teatro de uma amiga. Deve ter custado bem pouquinho. Me preocupei com o vazamento de parte do teto da minha cozinha.
AGOSTO
Tive frio. Fiz curso de colagem. Sorri no frio. Fiz gracinha nas redes. O vazamento da parede se intensificou. Percebi que meu vizinho não sabe ler nem ouvir áudio. Vi meu pai e fui a um show de um gringo baixista. Comecei a jogar tênis de mesa. Revi amigos. Brinquei com as filhas dos meus amigos. Tirei foto de flor e bebi Fanta manga.
SETEMBRO
Tirei foto no espelho. Bebi, amei, comprei pedras. Fiz bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Fui a manifestação e comprei uma fantasia do Naruto. O vazamento da cozinha se tornou insustentável e fizeram um rasgo na minha parede. O vizinho ficou puto. Nada a fazer. Senti cheiro de queimado ao fazer torta basca. Deu tudo certo.
OUTUBRO
Consertei o relógio que meu pai me deu quando eu era criança. Comemorei a vida e dei presente. Comi, bebi. Amei e beijei. A obra ficou pronta. Ou quase pronta. Erraram no tom da tinta. Ensaiei. Fiz bolo mole. Tirei cravos. Vi uma peça que talvez não tenha sido tão cara assim. Fiz orçamentos e vi muitos filmes. Tive conjuntivite.
NOVEMBRO
Fiz testes pra um papel. Comprei discos. Vi minha família. Gravei uma diária de uma série. Fiquei um dia na piscina. Me senti bem. Fiz outros orçamentos para tentar viabilizar uma peça própria que não deve ter um quarto do orçamento das outras peças caras que vi ao longo do ano. O mundo é injusto. Cagaram no tapete do vizinho e deixaram lá pra todo mundo ver. Falei com o síndico. Joguei tênis de mesa, malhei, nadei, li.
DEZEMBRO
Comi, bebi e outras coisas. Celebrei a amizade. Fui a uma estreia linda de uma peça. Fui a uma estreia linda de um curta. Me decepcionei e fiquei triste. Imaginei futuros possíveis e alguns impossíveis. Tive esperança. Renovei uma assinatura de queijo mineiro (que faz parte dessa esperança). Ainda faltam alguns dias para o ano acabar, e muita coisa pode acontecer (real).
Por enquanto, posso dizer que foi um ano cheio de “trem”. Na realidade, não sei se você, que me lê, se interessa por esse tipo de literatura ordinária. Mas é o que está tendo. Não quis inventar um personagem ou um outro universo. Quis falar de mim mesmo. Se bem que, quando inventamos um personagem e um outro universo, também estamos falando de si. No fim, tudo vira metáfora. E é aí que mora a beleza do banal.
Um beijo. Boas festas. Até o ano que vem, porque neste recesso eu quero jogar videogame e pensar no melhor que pode acontecer das nossas vidas.














Belo ano, belo texto! Boas festas!
PS: Como assim não gosta do Etevaldo???